O estranho mundo dentro de si

segunda-feira, 20 de junho de 2016

É sem dúvida uma prática prazerosa buscar extrair aos filmes de José Mojica Marins uma estética, um procedimento, um modo de narrar. Com efeito, trata-se de um autor completo, capaz exercitar seu estilo com bravas convicção e argúcia em cada obra: fato hoje bem aceito. E o que esse autor tem a dizer? Uma vastidão de coisas, sem dúvida. E dizê-las, em geral, por meio do terror é mister. Dizer da estranheza da vida, afirmar o extraordinário humano, uma potencialidade sempre desenvolvida, sempre pensada e rebuscada, normalmente a partir de um mínimo de recursos fílmicos. Delírios de um Anormal (1978) é construído quase integralmente de cenas extraídas de outros filmes do diretor, uma reciclagem que não é só barata como é inteligente. Afinal, a costura de recortes diversos, díspares, cenas coloridas ou não, resulta justamente num trabalho uniforme, ousado, surrealista.

O mesmo ocorre, de maneira bem menos anárquica, em Encarnação do Demônio (2008): aqui, recuperar fragmentos de À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) tem a dupla função de situar o espectador (novato ou não) no contexto da trilogia e o de fazer — ainda que com menos empenho e quiçá sem a menor intenção — uma colagem. Não é absurdo; em maior ou menor grau, se se observar bem, vários outros filmes de Mojica empregam essa operação (como O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), apenas para citar um exemplo — o segmento Ideologia aproveita cenários de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver), seja para reduzir custos, seja para estabelecer uma continuidade, por extensão, formal e temática entre as obras (a personagem Zé do Caixão sendo outro notável elo), seja porque a colagem é mesmo algo próximo do subconsciente e, portanto, da arte (cinema, no caso) com a qual flerta. Os dadaístas teriam muito a dizer sobre isso.

No âmbito da narrativa, aliás, o subconsciente adquire papel central no que concerne à fundamentação do terror mojiquiano. Não que se trate aqui de uma espécie de terror psicológico convencional; mas parece adequado apontar que o sobrenatural, quase sempre presente, é apenas sugestão. Visualmente ele está lá, vemo-lo como o veem as protagonistas atormentadas. Mas nunca havemos de admitir a existência indiscutível desse sobrenatural — antes, essa existência é ambígua, ou paradoxal. É e não é. É porque se constitui como ameaça, como realidade para os protagonistas. Não é porque, nesta chave de leitura, são mesmo os delírios de um anormal, a projeção em forma de terror do estranho inerente à natureza humana, aos medos mundanos.

Na verdade, o sobrenatural de Mojica é somente outra forma de enxergar o incomum cotidiano, que às vezes nos esforçamos para ver e não conseguimos, incautos de que esse incomum está sempre dentro de nós. Como o protagonista de Mundo-Mercado do Sexo (1978), que acha tudo "muito normal", e descobre, tragicamente, o anormal dentro de si — sem saber que, realmente, nada é normal. Ninguém é normal. Todos guardam um estranho mundo dentro de si, e vivem esse terror pessoal de diversas maneiras, como — para citar um derradeiro exemplo — o meta-Mojica de Delírios de um Anormal, que bem no final da película descobre em si uma projeção do mal, do incomum, atormentando-o como atormentou o dr. Hamílton; um mal projetado na figura do Zé do Caixão.

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