Evangelho e Teorema

terça-feira, 14 de junho de 2016

Hilton Lacerda assinala uma conexão entre O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo Secondo Matteo, 1964) e Teorema (1968). "De um lado a especulação e do outro a equação. De um lado o anjo do bem com o discurso esbravejante, cortante, político (Cristo). No outro o anjo do mal, com a espada da sedução em punho (o inominável). [...] Narrativas destoantes e conflituosas, mas complementares." (1)

Com efeito: destoantes, mas complementares. O último porque o anjo bom e o anjo mau se constituem como representações sagradas, símbolos do supra-humano, do modelo inatingível de amor. Ambos são figuras de choque, oponentes de uma sociedade conformista e passiva. Instituições do desafio, comunicando a mensagem final de santidade — que não advém do dogma, pelo contrário; tudo se realiza através da catarse, do contato com o não-convencional, fora da institucionalização engessada, resultando na transformação do meio, das relações.

Mas destoantes, sim, porque o Cristo de Pasolini (Enrique Irazoqui, voz de Enrico Maria Salerno) anuncia sua Palavra por meio de uma intransigente verborragia. Cristo antipático, que não conquista nem transforma com seu charme ou carisma, mas o faz pelo discurso, inflamado, criador. A palavra é, o verbo é; o que se diz, se faz, e o ambiente muda, abalam-se as instituições (Estado, religião).

Diferente da "força" de Teorema (Terence Stamp), que atrai e muda o microcosmo no qual se insere sem nada dizer. Aqui, há puro carisma, larga sedução — o texto é seu corpo. (Diria-se que a mise en scène é quem realmente arrebata, expressão em si, com plenos poderes e total domínio sobre o sujeito, dotada de um alto poder de sugestão sobre o espectador.) Só a partir daí uma reconstrução opera — pois que os alicerces da instituição (família) foram de pronto destruídos.

Cristo tem um nome, e também é o nomeador que altera só pelo movimento cambiante do discurso. A "força" não tem nome, e não poderia deixar de não ter; é uma negação, pronta a espalhar em silêncio a verdade do que as coisas não são.


(1) Lacerda, Hilton. "Pasolini e a Corrupção dos Sentidos." In: Kactuz, Flávio (org.). Pasolini, ou quando o cinema se faz poesia e política de seu tempo. p. 148. Rio de Janeiro: Uns Entre Outros, 2014.

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