"Encontros e Despedidas"

sábado, 14 de maio de 2016

Encontros e Despedidas (1985) é o lugar-limite na obra de Milton Nascimento; a fronteira entre um mundo (musical, geopolítico) conhecido e uma promessa de novidade, um desconhecido a ser encarado. Talvez mesmo porque o país se encontrasse nesse limite, nessa iminência necessária de uma mudança que se sobrepunha fatidicamente: a redemocratização enfim chegava, e caminhava a passos lentos rumo a um futuro cheio de esperança, mas desprovido de certezas. Como toda a carreira de Milton se dera durante a ditadura, durante a repressão, a música que houve de ser feita até ali era uma. Agora era a vez do outro.

Talvez ainda Milton percebesse que os tempos eram outros na música, que o rádio abria espaço para o pop rock, para novas vozes, uma novíssima juventude, e assim era o momento de se renovar igualmente, buscar novas parcerias e sonoridades.

É, portanto, desse modo que Encontros e Despedidas se realiza, como uma obra de reprogramação que, no entanto, não se esquece, não fecha as portas ao passado. Pelo contrário — "São só dois lados da mesma viagem", diz um trecho da faixa título. Por isso mesmo deve-se atentar , num nível mais imediato, à presença (em novos arranjos) da canção Raça no álbum, remetendo a (consagradas) experiências anteriores de Milton (e esta vem do disco de 1976, que leva o prenome do cantor), ou ainda à mesmíssima faixa-título, resgatada do balé O Último Trem, para o qual Milton fez trilha. Num plano mais próprio da percepção, verificamos que a mesma virtuose vocal de Milton continua sendo empregada sem meias medidas (em especial na faixa Vidro e Corte, uma vocalização capaz de recordar os melhores trabalhos sem letra do músico, como os delírios censurados de Milagre dos Peixes (1973)).

Mas o álbum reafirma a dualidade, a separação e o limite que os une de modo patente — o vidro e o corte que separa em dois lados (faixa 11), o sertão e o mar (faixas 3 e 4) e, enfim, os encontros e as despedidas. "A hora do encontro / É também despedida" porque se deixa de apontar que, ainda havendo separação, ela é uma continuidade, um seguimento e uma consequência natural de determinado roteiro ou repertório — para haver sertão é preciso haver mar e vice-versa; para se chegar é preciso partir.

E Milton partiu, embarcou nesse trem em direção a uma nova possibilidade de si, sem deixar de ser ele mesmo. Fecha o álbum, claro, com uma despedida e uma dúbia promessa de retorno, felizmente cumprida ("Nossa programação se encerra agora / Mas de teimosa volta amanhã"), na faixa 12, que nos faz imaginar se o que ouvimos não foi uma experiência (no sentido amplo, de vivência, ou de experimento) e integra o todo como uma programação de rádio daqueles novos dias de Brasil, comandada por um Bituca radialista antes de artista — mais ou menos à maneira na qual os Beatles organizaram seu Sgt. Peppers (1967) na lógica de um fictício show, de uma fictícia banda, mas que, quem sabe, dali para frente não passaria a existir...

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