"Auto da Barca do Inferno"

domingo, 22 de maio de 2016

Ainda que Ivan Teixeira aponte, em sua introdução ao Auto da Barca do Inferno, para uma oposição entre as figuras do Anjo e do Diabo, é preciso fazer notar que essa contraposição jamais será total. É verdade que o crítico o diz em termos de atitude e significado: o Anjo é sisudo (e representa a salvação), o Diabo é irônico (e representa a danação). Mas também na atitude e no significado essas personagens são de impressionante completude, visto que ambos são a representação mais preclara do moralismo quinhentista. Completam-se na chave de um demandar o outro nessa lógica moralizante, de a moral mesma só existir enquanto jogo de dois opostos: o debochado e o sério, o mal e o bem. Ou antes, o debochado que se delimita pela oposição ao sério e vice-versa, e o mal que se delimita pelo que é o bem (e vice-versa). As virtudes só são conhecidas a partir do momento no qual se definem os vícios — ideia, aliás, presente em algum livro do Antigo Testamento. Nesse sentido, é até acurado o termo que Teixeira usa para caracterizar essa complexa oposição entre o Diabo e o Anjo: "paradoxais." Pois, tendo em vista que essas personagens se circunscrevem nas linhas de um mesmo discurso, opostas mas complementares, elas não podem ser mera antítese, mas um agridoce paradoxo. Navegam em direções contrárias — de um mesmo rio, porém.

E seriam ainda mais completas mutuamente essas personagens por adotarem a mesma postura acusadora, apontando os crimes ou as bem-aventuranças dos tipos humanos. Ainda que executores de sentenças de calibre diverso, é nessa função por assim dizer "promotorial" que o Anjo e o Diabo se aproximam, nessa investigação que conduzem sobre os feitos terrenos dos homens. Não obstante, Satã aparece mesmo frequentemente, na tradição bíblica, como um perscrutador, um investigador-acusador; o anjos, por outro lado, aparecem e reaparecem nas narrativas bíblicas como mensageiros, comunicadores de uma sentença divina qualquer. Ambos, o Diabo e o Anjo, tomam parte nesse tribunal. Assim equiparam-se, de certa maneira, nessa peça de Gil Vicente; facetas de um mesmo dever acusador, aclarante dos delitos, instâncias comunicadoras de um juízo dado, instrumentos de condenação agindo por meios diversos.


VICENTE, Gil. Auto da Barca do Inferno. 10 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.

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