Erguer-se — Michael Cimino

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Toma-se três filmes de Michael Cimino, O Franco-Atirador (The Deer Hunter, 1978), O Portal do Paraíso (Heaven's Gate, 1980) e O Ano do Dragão (Year of the Dragon, 1985), partindo-se deles para compreender o gesto de se erguer — talvez não na literalidade entendida por Bruno Andrade, emparelhando o gesto de Meryl Streep no primeiro longa com o levartar-se de Mickey Rourke no último, (1) mas sim nessa recusa do herói ciminiano em permanecer no chão, rastejando frente à dificuldade absurda das circunstâncias.

É preciso compreender, porém, que o herói de Cimino está fadado à derrota; não por oráculo, mas por (in)determinação socio-política, condenado a uma anti-jornada errante. De Niro, Kristofferson, Rourke: vitimados pela guerra, pela disputa de terras, pela violência da máfia. Tudo não passa, afinal de contas, de entreveros territoriais, de política (oficial ou não), com profundas reverberações sociais e particulares, no caso desses indivíduos.

Mesmo quando têm (pequenos) sucessos, esses homens caem, caem feio, se machucam, adquirem profundas chagas no corpo e na personalidade. Apenas para, depois, se reerguerem e continuarem trilhando o caminho torto de suas vidas, mais ou menos ainda imersos no caos — talvez livres dele por um átimo. Mas a competição sempre estará presente na "terra das oportunidades".

Não se trata, no entanto, de redenção. Jamais. A vitória individual já não é mais possível nesse mundo que nunca se mostrou tão selvagem. Cimino oferece outra alternativa: a sobrevivência. A vida? Não, não é possível. Resta somente sobreviver, isto é, "viver do jeito que dá", como as condições permitem, ser um herói sim, mas um herói moderno, de cinema moderno. Lutar, lutar sempre e nunca vencer de todo, como Rocky Balboa, Pat Garrett ou até mesmo Rosemary Woodhouse. Por isso De Niro e seus amigos só podem brindar e beber, Kristofferson só pode se refugiar num barco longe de tudo, e Rourke só pode se levantar... e sair caminhando.


(1) cf. Andrade, Bruno. "O caminho da última vez". In: Easy Riders: O cinema da Nova Hollywood. p. 37. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2015.

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