"La Sapienza"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Em Eugène Green, a verdade não é subtexto; é afirmação explícita, a cada plano. Mas ao contrário do que se poderia pressupor, o autor não está preocupado em defender uma tese espúria, nem em explicar unilateralmente o mundo. A verdade de Green é totalizante, no sentido de abrangir o todo. Talvez dialética, resultante da tensão entre dois pólos de conhecimento, de percepções de mundo.

O cineasta dialoga com a ciência e a religião, o masculino e o feminino, a juventude e a idade adulta. O jogo de oposições, claro, decorre em conflito, mas não em um insolúvel; a solução parece se encontrar na própria expressão do conflito, na compreensão do que essas verdades têm a oferecer, e na sua posterior fusão. São palavra e, portanto, carregam um mundo dentro de si.

Isso tudo pode ser dito sobre qualquer trabalho de Green — cineasta de percurso sólido —, desde os primevos Todas as Noites (Toutes les Nuits, 2001) e O Mundo dos Vivos (Le Monde Vivant, 2003) até este belíssimo La Sapienza (2014). Aqui, todas as oposições acima agem em simultâneo, e a mesma vida que se faz expressar em suas obras anteriores está presente — não poderia deixar de estar. Pois o mundo é sempre presente e vivente; se faz vivo pela natureza criadora das palavras, e essas obras, nas quais à palavra é restituído um valor meio esquecido diante da soberania crescente das imagens na contemporaneidade, essas obras se constituem como verdadeiras odes ao humano, ao sagrado, à arte.

Mas o cinema de Green está longe de rechaçar a imagem: o autor a alia em simbiose harmônica a essa palavra criadora, a esse verbo que promove a ação. Os closes fechados não mostram rostos inexpressivos, mas rostos que ganham expressividade através dos contornos das falas, cuja dimensão suscita o drama, o romance, a fábula mais que qualquer movimento, e o que o plano não mostra fica subentendido nessa ação de amálgama.

Green parte da arquitetura para construir La Sapienza, e seu simples enredo gira em torno dela, flerta com ela e a discute. Sempre caindo em divagações estéticas, nunca em afirmações extrapoladas pois a única é a vida, e ela tudo abrange. Sobra espaço para a ironia à anglofonia (que Green recusa e despreza, sendo ele próprio um americano radicado francês) na figura do turista australiano — e um lamento pela descaracterização progressiva da arte, forçosa e gradativamente imbuída de pretensões comerciais que lhe retiram a beleza (a notar pelas figuras dos arquitetos-chefes no início do longa). Uma crítica, enfim, ao imperialismo cultural, que tipifica e padroniza tudo sob sua égide.

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