"Doutor Jivago" (romance)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

As coisas acontecem mais ou menos por acaso no romance de Pasternak. As vidas das personagens se cruzam, em teias intricadas, em relações às vezes simultâneas. Trata-se da tradição da literatura russa, de cunho épico, vasta, apoteótica. Pasternak se insere nessa tradição e a discute. Pois, não bastando o livro ser um romance, ele também é isso, um estudo. Um estudo das influências, um exame da literatura russa e seus autores, sua inserção nos contextos a que dizem respeito, seu peso na História da Rússia e na história individual de cada personagem.

Ao mesmo tempo, o romance se mostra uma livre discussão dessa própria História, e de tudo que a envolve, fixando seu ponto de vista nuns poucos indivíduos — e não representa pouco devolver às pessoas a individualidade dentro de um Estado no qual a vida particular foi, por decreto, substituída pela vida coletiva. Iúri Jivago o faz em seus poemas e escritos diversos, espelhando um opresso Pasternak, sufocado quase pela autoridade soviética por conta deste seu trabalho ousado. Os indivíduos desse conto épico, longe de serem fixos, de demonstrarem sempre as mesmas certezas e inseguranças, são sempre de opiniões cambiantes, como o são suas personalidades, seus corpos e o curso mesmo da História que os engloba.

Daí que o livro se constitui numa análise literária, filosófica, sociológica, histórica dos eventos reais e dos suprarreais, da narrativa em si.

Em Doutor Jivago acompanhamos uma vida e algo mais. Muitas vidas, em flashes, em detalhes. A vida do povo russo, retratada em suas contradições, as mesmas sujeitas às personagens. Cativa esse tratamento, cheio de conflito, desses humanos à mercê dos sentimentos e da História; deveriam fazer parte dela, mas ela sempre lhes escapa para, justamente, cair sobre eles.


PASTERNAK, Boris. Doutor Jivago. Tradução de Zoia Prestes. 4 ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2013.

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