"Mezmerize"

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Chega a ser surpresa que, após três álbuns irregulares (em sua monotonia preguiçosa), o System of a Down nos brinde com um trabalho de verdadeira qualidade. Se Steal This Album! repete o esquema do disco de estreia do grupo, baseado numa tacanha uniformidade estilística, num ritmo quase sempre acelerado e quase nunca agradável, também mantém a maior discrição de Toxicity, sem contudo introduzir nada de novo a esse respeito.

Em Mezmerize, porém, chega o avanço e a banda finalmente proporciona um disco inteiramente bom — bom mesmo sem ser escutado junto a Hypnotize, continuação do álbum, lançada no mesmo ano. Essa relação de sentido entre as duas partes fica explícita, de cara, em Soldier Side - Intro, prólogo para a última canção de Hypnotize e abertura digna a este Mezmerize. A delicadeza mais ou menos brutal (assinalo o paradoxo) da música introduz ao equilíbrio incomum (em se tratando de SOAD) do álbum.

Pois que Mezmerize se fundamenta todo em oposições que não se concretizam, e viram experimento, polifonia, paradoxo. Canções que iniciam numa linha melódica mais cadenciada evoluem de súbito a peças agressivas, e a recíproca é verdadeira também. Exemplo disso são as últimas composições do disco, Old School Hollywood e Lost in Hollywood: ambas evocam alguma relação temática através do motivo "Hollywood", mas o tratamento oferecido a cada uma difere.

As músicas do álbum estão longe de serem todas iguais, e há certo ímpeto experimental nessa variação — chegando ao uso de uma levada eletrônica numa das faixas. Aqui, a banda parece ter encontrado um caminho, de B.Y.O.B. a Violent Pornography; permanecem as letras políticas, mas a melodia que as acompanha e o tom dessa melodia melhoraram, precisamente por se terem tornado maleáveis.

O álbum ainda assim demanda uma segunda visita que o otimize — como todos. Mas já a primeira o configura como bom. Frui-lo uma segunda vez talvez o categorize como ótimo, e o afaste da regular regularidade dos anteriores (que assim são irregulares, forçando a trademark quando a busca por uma identidade exigia algo bem menos rude e comprometido).

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